UM PORTO EM ARROIO DO SAL, NO LIMITE DO ABSURDO

 O engenheiro Athos Stern, professor aposentado da Escola de Engenharia da Ufrgs, ex-presidente e consultor técnico da Associação Comunitária de Imbé-Braço Morto, analisou profundamente o projeto do porto Meridional, a ser implantado em Arroio do Sal, e chegou a conclusões baseadas em dados técnicos, científicos e sociológicos que apontam para a sua completa inviabilidade. 

Cabe aos ambientalistas e os moradores e veranistas do Litoral Norte se engajarem numa campanha de esclarecimento e de contestações judiciais para que este absurdo não aconteça. 



PORTO MERIDIONAL - ARROIO DO SAL/RS

 Viabilidade Territorial, Impactos Demográficos, Econômicos, Sociais e Logísticos


1. Inadequação Territorial e Técnica da Implantação de Portos Marítimos no Litoral Norte do RS

1.1 Ausência de condições naturais mínimas para instalação de porto

O litoral norte do Rio Grande do Sul é caracterizado por:

  • costa retilínea, exposta, sem baías naturais, enseadas ou reentrâncias que permitam proteção de navios;
  • ausência de profundidade natural suficiente, conforme estudos da FURG que identificam terra de areia, ao sul de Arroio do Sal, como a zona de maior profundidade da costa norte — ainda assim insuficiente para grandes navios, e totalmente instável;
  • necessidade obrigatória de molhes gigantescos e obras de proteção artificial, de altíssimo custo, extremamente sensíveis a ressacas e correntes longitudinais.

1.2 Consequência direta dessa condição geográfica

Para que o porto opere, seria necessário:

  • dragagem contínua e profunda;
  • construção de molhes de altíssima escala;
  • terraplanagem em magnitude incompatível com o relevo;
  • manutenção anual caríssima devido ao assoreamento rápido.

O RIMA não apresenta modelagens hidrodinâmicas, erosivas ou de estabilidade de molhes, violando exigências do próprio Termo de Referência.


2. Crescimento Demográfico Acelerado e Conflito Irreversível com a Função Urbana e Turística da Região

2.1 Litoral Norte: região mais dinâmica em crescimento populacional no RS

Dados consolidados apontam:

  • taxa de crescimento populacional quatro vezes superior à média nacional;
  • Imbé, Capão da Canoa, Arroio do Sal, Tramandaí, Xangri-lá, Pinhal e Cidreira entre os municípios que mais crescem no RS;
  • forte processo de migração de aposentados buscando qualidade de vida, tranquilidade, turismo permanente e clima litorâneo.

2.2 Impacto sobre esse perfil populacional

A instalação de um porto marítimo:

  • ameaça diretamente o bem-estar que atrai essa população;
  • induz poluição atmosférica, sonora e visual;
  • produz adensamento de tráfego pesado;
  • gera conflitos de vizinhança e perda de valor imobiliário;
  • reduz a atratividade turística;
  • desloca economicamente moradores fixos e veranistas.

2.3 Consequência macroeconômica

A perda de qualidade de vida gera:

  • migração acelerada para o litoral de Santa Catarina;
  • queda de receitas municipais (ISS, IPTU, comércio, serviços, construção civil);
  • destruição de décadas de investimentos públicos e privados no turismo litorâneo.

O RIMA ignora completamente essa dinâmica demográfica — omissão grave e estrutural.


3. Impactos Sociais, Urbanos e de Segurança Pública

3.1 Aumento da circulação de caminhões

A implantação portuária implica:

  • aumento superior a 120% no tráfego pesado local;
  • elevação da poluição atmosférica e visual;
  • risco ampliado de acidentes, engarrafamentos e travamento das vias do litoral;
  • impacto direto sobre moradores, comércio, empreendimentos e serviços turísticos.

Nenhum desses impactos foi modelado no RIMA.

3.2 Degradação social associada a polos portuários

A literatura internacional e nacional é clara:

  • portos são polos naturais de tráfico ilícito (cocaína, anfetaminas, contrabando);
  • presença de meretrício e prostituição de rua em zonas portuárias é fenômeno recorrente;
  • aumento de violência, conflitos e degradação do entorno.

Nada disso foi sequer mencionado no RIMA, embora faça parte da realidade brasileira em portos privados e públicos.


4. Custo Econômico, Fiscal e Logístico — RIMA omite viabilidade financeira real

4.1 Nenhum porto é exclusivamente privado

Mesmo terminais privados dependem de:

  • acessos públicos;
  • duplicações rodoviárias;
  • fiscalização e segurança;
  • obras de urbanização;
  • serviços de saúde, educação e habitação adicionais diante do crescimento populacional induzido.

O RIMA não identifica nenhuma responsabilidade financeira do Estado.

4.2 Quem pagará a duplicação da Rota do Sol?

Questões fundamentais ignoradas:

  • Qual o custo total da duplicação?
  • Quem financiará? Estado, União, município ou empreendimento privado?
  • Qual o impacto sobre o orçamento público?
  • Quantos profissionais deixarão de ser contratados (policiais, professores, médicos, servidores) para financiar essas obras?

Nenhuma resposta é apresentada.

4.3 Indefinição de custos, benefícios e balanço socioeconômico

A análise Custo-Benefício é:

  • inexiste no RIMA;
  • impossível de ser aferida sem dados logísticos, operacionais e financeiros;
  • incompatível com boas práticas de avaliação de grandes projetos (OCDE, Banco Mundial, IPEA).

5. Repercussão sobre a rede portuária existente – Risco de inviabilização de outros portos

5.1 Transferência de cargas, e não criação de demanda

As análises já enviadas ao IBAMA apontam:

  • o porto pretende capturar cargas atualmente movimentadas por Rio Grande, Porto Alegre, Imbituba e outros terminais;
  • não há perspectiva de novos players;
  • existe risco de incapacitar financeiramente outros portos, especialmente os já fragilizados (como Porto Alegre e São José do Norte).

5.2 Perguntas não respondidas pelo empreendimento

  • Qual o impacto sobre a rentabilidade e sustentabilidade dos demais portos do RS?
  • Qual o impacto sobre o Porto de Imbituba/SC?
  • Qual o impacto sobre transportadoras, operadores logísticos e cadeias produtivas já estabelecidas?

O RIMA não apresenta uma única simulação logística.


6. Impactos Imobiliários e Patrimoniais – Risco de perda maciça de valor

Questões inevitáveis (e totalmente ignoradas):

  • Qual o impacto sobre o valor dos imóveis residenciais e turísticos?
  • Qual o prejuízo patrimonial das famílias que investiram por décadas no litoral norte?
  • Qual o impacto sobre construção civil e mercado imobiliário?
  • Qual o impacto sobre o comércio de verão, eventos e serviços?

Nenhum estudo foi apresentado.


7. Participação Social – Ausência completa de consulta aos moradores do Litoral Norte

Perguntas essenciais permanecem sem resposta:

  • Os moradores foram consultados?
  • Os veranistas foram ouvidos?
  • As comunidades indígenas, pesqueiras e tradicionais participaram?
  • Há anuência das maiores cidades turísticas afetadas (Torres, Capão, Imbé, Xangri-lá)?

A resposta é: não.

O RIMA viola o Estatuto da Cidade, a Lei 6.938/81 e a Convenção de Aarhus (participação pública em decisões ambientais).


8. Conclusão Geral da Nova Crítica

O Porto Meridional, conforme apresentado:

1.     É territorialmente inadequado — a costa norte não possui condições geográficas para portos marítimos sem obras gigantescas e instáveis.

2.     É social e demograficamente incompatível com a região que mais cresce no RS e depende do turismo e qualidade de vida.

3.     É economicamente opaco — falta análise de custos, ausência de definição sobre financiamentos e externalidades públicas.

4.     É logisticamente inconsistente — não demonstra demanda própria e tende a desestruturar portos existentes.

5.     É juridicamente frágil — omite impactos cumulativos, climáticos, sociais, fundiários e de segurança pública.

6.     É ambientalmente insustentável — requer dragagens profundas, proteção artificial e causa intrusão salina e erosão.

7.     É socialmente rejeitado — não houve participação pública efetiva.

Diante disso, o RIMA:

  • não atende às exigências mínimas do Termo de Referência do IBAMA;
  • não possui consistência técnica para subsidiar Licenciamento Prévio;
  • apresenta vícios insanáveis, omissões graves e ausência de estudos fundamentais.

 

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