DEFENDER O LITORAL - OU ABANDONÁ-LO

 



Construir um porto no rio Tramandaí, com a fixação da barra e o acesso por molhes que entrariam mar adentro, é uma ideia que existe desde os anos 1950. Mas antes de torná-la realidade, o então Departamento Estadual de Rios e Canais - Deprc - pediu uma análise do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Ufrgs para avaliar as consequências ambientais da obra.

O estudo, concluído em 1965, demonstrou que a construção de molhes provocaria forte erosão em Imbé (até cerca de 160 m de recuo da praia), razão pela qual a obra foi considerada ambiental e urbanisticamente inviável. A opção pela guia corrente (foto acima) se revelou adequada.

Agora, seis décadas depois, volta-se a cogitar a construção de portos no litoral norte do RS. Cabe à população lutar para que a ambição desmedida não acabe causando danos irreparáveis.

Na simulação abaixo, o que seria um porto em Arroio do Sal, no litoral norte.


O Litoral Norte do Rio Grande do Sul está diante de uma escolha histórica.

ATHOS STERN

Engenheiro, professor aposentado da Ufrgs

Ex-presidente e consultor da Associação Comunitária de Imbé-Braço Morto 


Não se trata apenas dos projetos do Porto Meridional e do Porto Litoral Norte.
Trata-se de decidir que tipo de território queremos deixar para as próximas gerações.

De um lado, um modelo que impõe ao litoral uma lógica industrial pesada, artificial, permanente e de alto risco ambiental.
De outro, a preservação de um dos poucos trechos costeiros ainda contínuos, vivos e funcionalmente íntegros do Brasil.

A ciência já falou — e falou há décadas.

O estudo clássico do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS, baseado em modelo físico reduzido da embocadura do Rio Tramandaí, não deixou dúvidas:

Intervenções com molhes e estruturas portuárias em um sistema costeiro como o nosso provocam efeitos previsíveis, intensos e destrutivos.

A simulação reproduziu com precisão:

  • correntes marítimas
  • transporte de sedimentos
  • deriva litorânea (de sul para norte)
  • comportamento real das praias

E o resultado foi claro, técnico e incontestável:

👉 acúmulo de areia ao sul
👉 erosão severa ao norte
👉 recuo da linha de costa de até 160 metros em Imbé em cerca de uma década

Não foi uma hipótese.
Foi um ensaio físico controlado, replicando a realidade costeira.

E, com base nisso, a própria engenharia recomendou:

NÃO EXECUTAR A OBRA.

Essa decisão, tomada com base científica, evitou no passado:

  • a destruição de praias
  • a perda da balneabilidade
  • o colapso urbano de áreas costeiras
  • a degradação ambiental em cadeia

Hoje, ignorar esse conhecimento não é falta de informação.
É ESCOLHA.

E essa escolha tem consequências.

Porque portos não são estruturas isoladas.
Eles interrompem fluxos naturais, alteram correntes, redistribuem areia e desencadeiam processos que não respeitam limites municipais.

O impacto não para em Arroio do Sal.
Ele se propaga por todo o litoral:

  • Torres
  • Capão da Canoa
  • Xangri-lá
  • Imbé
  • Tramandaí
  • Cidreira

É UM SISTEMA ÚNICO. INTERLIGADO. SENSÍVEL.

E não está em jogo apenas a geomorfologia costeira.

Está em risco um patrimônio vivo, raro no planeta:
a pesca colaborativa entre pescadores e o boto-de-Lahille (Tursiops gephyreus), reconhecida como patrimônio cultural imaterial.

Essa prática não sobrevive à degradação ambiental.
Ela desaparece — como já desapareceu em quase todo o mundo.

E quando ela desaparece, não é só cultura que se perde.

Perde-se:

  • biodiversidade
  • equilíbrio ecológico
  • identidade regional
  • conhecimento tradicional

E o processo segue um roteiro conhecido:

primeiro os botos somem
depois os cardumes
depois a pesca
depois a qualidade da água
depois o turismo
depois o valor do litoral

E, por fim, O PRÓPRIO SENTIDO DE VIVER AQUI.

A promessa de desenvolvimento precisa ser confrontada com a realidade:

Os benefícios econômicos diretos não ficam na região.
Os impactos, sim — e por décadas.

O Litoral Norte não precisa de um experimento de alto risco.
Ele já tem uma vocação consolidada:

  • turismo
  • qualidade de vida
  • patrimônio ambiental
  • crescimento sustentável

Transformá-lo em corredor portuário é trocar um modelo que funciona por outro que historicamente gera conflito, degradação e dependência.

A pergunta central permanece — simples e definitiva:

VALE A PENA ARRISCAR TODO O LITORAL POR DOIS PORTOS?

Porque há uma verdade que não pode ser ignorada:

Depois que a estrutura é construída, não existe retorno.

A história, a ciência e a experiência internacional convergem para o mesmo ponto:

Intervenções desse tipo, em costas abertas e arenosas como a do Rio Grande do Sul, produzem impactos duradouros e muitas vezes irreversíveis.

Defender o Litoral Norte hoje é um ato de responsabilidade.

É afirmar que:

  • conhecimento científico importa
  • patrimônio cultural importa
  • equilíbrio ambiental importa
  • qualidade de vida importa

É recusar decisões que comprometem gerações futuras por ganhos imediatos e concentrados.

É compreender que proteger o litoral não é ser contra o desenvolvimento.

É ser contra o erro.

E, sobretudo, é garantir que daqui a 10, 20, 50 anos, ainda exista aquilo que hoje está em risco:

PRAIAS VIVAS, ÁGUAS LIMPAS, COMUNIDADES ATIVAS E UM LITORAL QUE AINDA POSSA SER CHAMADO DE LAR.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

PORTO EM ARROIO DO SAL

CARTA AOS PREFEITOS DO LITORAL NORTE DO RS

ALERTA AO LITORAL NORTE: NÃO É PROGRESSO. É RISCO REAL.