CARTA AOS PREFEITOS DO LITORAL NORTE DO RS
Sobre a omissão institucional diante da Implantação do Porto Meridional
e dos Impactos irreversíveis a toda região
Senhores Prefeitos,
O Litoral Norte do Rio Grande do Sul atravessa, neste momento, o período mais decisivo de sua história recente. E é impossível silenciar diante da ausência inexplicável das administrações municipais — especialmente daqueles que, por dever constitucional, deveriam estar na linha de frente na defesa do meio ambiente, da população e da qualidade de vida regional.
Com a aprovação do novo Plano Diretor de Arroio do Sal — vendida como “progresso” — abriu-se a porta para o que pode se tornar o maior desastre socioambiental do Litoral Norte. Um movimento extremamente grave, feito sem participação regional, sem diálogo, sem estudos, sem transparência — e recebido pelos prefeitos vizinhos com uma passividade que beira a conivência.
E é preciso ser dito com todas as letras:
A OMISSÃO DOS PREFEITOS DO LITORAL NORTE HOJE SERÁ LIDA, PELA HISTÓRIA, COMO CULPA DIRETA PELO COLAPSO DAS SUAS PRÓPRIAS PRAIAS.
1. O litoral norte NÃO comporta um porto — e ignorar isso é assumir a responsabilidade pela destruição de toda a região
O litoral norte gaúcho possui uma das costas mais frágeis do Brasil:
- costa reta e totalmente exposta;
- ausência completa de baías, enseadas ou profundidade natural;
- correntes paralelas extremamente agressivas;
- histórico conhecido de erosão severa.
Qualquer porto aqui depende de:
- dragagens eternas,
- molhes gigantescos,
- interrupção da dinâmica natural da praia,
- erosão devastadora para norte e sul.
Não há solução técnica milagrosa.
E, para agravar, o RIMA apresentado não contém modelagem costeira, não contém simulações sérias, e não cumpre os requisitos básicos do IBAMA.
Prefeitos que se calam aceitam tacitamente que suas praias sejam sacrificadas.
2. A ameaça NÃO é local — é regional, e atinge diretamente seus próprios municípios
Caso o porto avance, os efeitos NÃO ficarão restritos a Arroio do Sal. A linha de erosão se propaga em cadeia.
Os estudos costeiros de décadas mostram:
quando se mexe em um ponto da costa reta gaúcha, TODA a praia sofre.
Isso significa:
- Torres: perda acelerada de areia;
- Arroio do Sal: trechos inviabilizados;
- Capão da Canoa e Xangri-lá: erosão contínua;
- Imbé e Tramandaí: colapso de dunas, retrocesso da praia;
- Cidreira e Balneário Pinhal: avanço do mar e destruição do cordão arenoso.
Portanto, prefeitos que não se posicionam estão entregando o próprio litoral à erosão irreversível.
3. A retórica de “porto é progresso” não resiste a 30 segundos de honestidade técnica
Portos não convivem com turismo:
- ruído permanente,
- poluição do ar e da água,
- tráfego pesado 24h por dia,
- desvalorização imobiliária imediata,
- descarte de efluentes e resíduos altamente tóxicos,
- intensificação de conflitos urbanos e criminalidade,
- fim da atratividade turística.
A região que mais cresceu no RS nas últimas décadas cresceu porque tinha praia, natureza, sossego e qualidade de vida.
Com o porto, tudo isso desaparece — rapidíssimo.
4. A conta NÃO será paga pela iniciativa privada — será paga pelos municípios omissos
Hoje não há resposta sobre:
- Quem vai pagar a adaptação da infraestrutura regional?
- Quem arcará com saúde, saneamento, moradia, segurança e trânsito?
- Quem assumirá os custos de erosão, obras emergenciais e danos ambientais?
A resposta é óbvia: os municípios, seus orçamentos já frágeis, e seus contribuintes.
O silêncio de vocês, prefeitos, está custando bilhões aos seus munícipes — e o verão das próximas gerações.
5. A população não foi ouvida — mas será a mais prejudicada
Nenhuma audiência regional.
Nenhum debate metropolitano.
Nenhum grande município consultado.
Nenhum veranista ouvido.
E os prefeitos?
Assistindo de braços cruzados.
Quem não participa agora perde legitimidade para reclamar depois.
6. A herança que seus filhos e netos receberão depende das decisões — ou omissões — dos senhores HOJE
O porto não é um projeto de 5 anos.
É uma ferida aberta no litoral por um século.
Cada dragagem ampliará danos.
Cada ressaca exigirá novos gastos.
Cada obra corretiva criará novos problemas.
Prefeitos que silenciam agora assumem, perante a história, que foram cúmplices da destruição das praias que receberam e mantiveram milhares de famílias ao longo de décadas.
7. Advertência final: NÃO HAVERÁ SEGUNDA CHANCE
Este é o ponto crítico:
Os senhores prefeitos são autoridades ambientais.
São responsáveis diretos, constitucionalmente, pela proteção do meio ambiente e da qualidade de vida.
A omissão administrativa diante de risco ambiental conhecido e amplamente documentado é, juridicamente, responsabilidade civil, administrativa e potencialmente penal.
E não haverá álibi no futuro.
Não haverá desculpa plausível.
Não haverá narrativa capaz de apagar o fato:
OS PREFEITOS DO LITORAL NORTE TIVERAM A OPORTUNIDADE DE IMPEDIR O COLAPSO DAS PRAIAS — E ESCOLHERAM SILENCIAR.
Cada município tem agora duas opções:
1) Posicionar-se publicamente, legalmente e tecnicamente contra o Porto Meridional;
2) Tornar-se coautor de seu impacto irreversível.
CONCLUSÃO — O recado direto aos prefeitos omissos
Senhores,
Não se enganem pela ilusão de distância:
Este porto destruirá o litoral que seus munícipes usam, amam, frequentam e no qual investiram suas vidas.
E quando as praias forem levadas pelo mar, quando o turismo morrer, quando o valor imobiliário ruir e quando o litoral virar um corredor de caminhões e efluentes:
Será impossível dizer “eu não sabia”.
Este aviso está sendo dado agora — claro, detalhado e documentado.
Há tempo para agir.
Mas o tempo está acabando.
A responsabilidade está em suas mãos.
E a história julgará — com precisão — quem defendeu o litoral e quem entregou o futuro por omissão.
Atenciosamente,
ATHOS STERN
Engenheiro, professor aposentado da Ufrgs
Ex-presidente e consultor da Associação Comunitária de Imbé-Braço Morto
Salvem o Litoral Norte do Rio Grande do Sul
ResponderExcluirAcrescente -se a esta trágica obra, os inúmeros condomínios para ricos e abastados, que estão sendo construídos ao longo do litoral, o corte de vegetação e destruição da fauna e a ausência de estrutura de acesso e tratamento de esgoto. É impossível negar que as mudanças climáticas se intensificaram.
ResponderExcluirJuntos nessa insanidade negacionista estão prefeitos e o próprio governo estadual, que devem estar lucrando com esses emprendimentos.
Porto, condomínios de luxo, duplicação da estrada do mar (para caminhões)....nada pensado nas pessoas ou meio ambiente, somente visao de lucro
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