ILHAS DE CALOR, SUPRESSÃO DE APP E CRISE CLIMÁTICA EM IMBÉ
Um retrocesso ambiental em plena emergência climática
1. Emergência climática: o mundo avança, Imbé retrocede
O planeta atravessa uma emergência climática sem precedentes. O Sexto Relatório de Avaliação do IPCC e os estudos mais recentes do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS (IPH) são convergentes: eventos extremos — chuvas intensas, ondas de calor, enchentes e elevação do nível do mar — serão mais frequentes, mais intensos e mais destrutivos, especialmente em regiões costeiras e estuarinas como o Litoral Norte do Rio Grande do Sul.
Diante desse cenário, cidades no mundo inteiro estão reorientando seus modelos urbanos, priorizando:
- infraestrutura verde;
- preservação e ampliação da arborização;
- restauração de áreas úmidas e APPs;
- mitigação de ilhas de calor;
- adaptação à elevação do nível do mar.
Imbé, no entanto, segue na direção oposta.
2. Ilhas de calor urbanas: um fenômeno conhecido e evitável
As ilhas de calor urbanas são um fenômeno amplamente estudado. Áreas densamente construídas, impermeabilizadas e com baixa cobertura vegetal podem registrar temperaturas até 10–15 °C superiores às áreas arborizadas.
As causas são conhecidas:
- supressão de vegetação arbórea;
- impermeabilização do solo;
- uso intensivo de asfalto e concreto;
- bloqueio da ventilação natural;
- verticalização em áreas sensíveis.
As consequências também são amplamente documentadas:
- agravamento de ondas de calor;
- aumento do consumo de energia;
- piora da qualidade do ar e da água;
- maior mortalidade por doenças cardiovasculares e respiratórias;
- intensificação de enchentes e alagamentos;
- colapso da infraestrutura urbana.
3. A responsabilidade direta da Prefeitura de Imbé
As ações recentes da Prefeitura de Imbé não apenas ignoram a ciência climática, como agravam deliberadamente o aquecimento local, criando ilhas de calor em plena Área de Preservação Permanente (APP) não consolidada, às margens do Rio Tramandaí.
Entre essas ações destacam-se:
- remoção da vegetação, a supressão das casuarinas;
- impermeabilização extensiva da APP;
- substituição de valas de drenagem por tubulações enterradas abaixo do lençol freático, tecnicamente inadequadas;
- pavimentações excessivas, acima dos padrões técnicos de cidades maiores;
- aprovação de edifício de 15 pavimentos em APP, alterando o microclima, a ventilação e o regime térmico do rio;
- implantação de equipamentos recreativos em APP, contrariando a função ecológica da área.
Essas intervenções eliminam exatamente os elementos que resfriam naturalmente o ambiente urbano: sombra, evapotranspiração, infiltração da água, ventilação e biodiversidade.
4. A supressão das casuarinas: erro técnico e ambiental
A remoção das casuarinas na margem esquerda do Rio Tramandaí constitui grave erro técnico e ambiental, especialmente em um ambiente de restinga exposto a ventos fortes, solo arenoso e salinidade elevada.
Embora classificadas como “exóticas”, as casuarinas desempenhavam funções ambientais essenciais:
- atuavam como barreira contra ventos, protegendo o solo e a infraestrutura;
- funcionavam como sumidouros de carbono;
- estabilizavam margens e reduziam erosão;
- criavam microclima mais ameno, reduzindo temperaturas;
- preparavam o solo para a sucessão ecológica de espécies nativas mais exigentes.
A remoção dessas árvores sem qualquer plano prévio de reposição vegetal efetiva agravou:
- o aquecimento local;
- a exposição ao vento;
- a erosão das margens;
- o risco de alagamentos;
- a degradação paisagística e ecológica da APP.
Em cidades ambientalmente avançadas, a retirada de árvores só ocorre após o pleno estabelecimento da vegetação substituta — exatamente o oposto do que ocorreu em Imbé.
5. APP não consolidada: violação legal e aumento do risco de desastre
A margem esquerda do Rio Tramandaí caracteriza-se como Área de Preservação Permanente não consolidada, protegida pela Lei nº 12.651/2012.
Intervenções nessa área:
- exigem estudos ambientais completos;
- devem respeitar o princípio da precaução;
- não podem priorizar interesses urbanísticos ou recreativos sobre a função ecológica.
Ao suprimir vegetação, impermeabilizar o solo e autorizar edificações e equipamentos em APP, o poder público:
- reduz a capacidade de amortecimento de cheias;
- diminui a infiltração e a recarga hídrica;
- acelera o escoamento superficial;
- transforma eventos naturais em desastres ambientais.
Em um cenário de chuvas mais intensas e elevação do nível das águas, essas decisões colocam a população em risco direto.
6. Infraestrutura cinza versus soluções baseadas na natureza
Enquanto Imbé aposta em obras rígidas, pavimentações e supressões, o mundo desenvolvido avança em outra direção:
- Paris, Berlim, Copenhague e Rotterdam tratam arborização como infraestrutura urbana essencial;
- investem em florestas urbanas densas;
- reabrem canais naturais de drenagem;
- reduzem áreas asfaltadas;
- priorizam pavimentos permeáveis;
- restauram APPs e margens fluviais.
Essas cidades compreenderam que árvores, solos vivos e água são infraestrutura climática, não obstáculos ao desenvolvimento.
7. Consequências previsíveis e evitáveis
Se mantido o atual modelo adotado pela Prefeitura de Imbé, os efeitos serão:
- aumento contínuo das temperaturas urbanas;
- eventos extremos mais frequentes;
- colapso da drenagem urbana;
- prejuízos econômicos ao turismo;
- deterioração da balneabilidade;
- agravamento de problemas de saúde pública;
- perda irreversível da qualidade ambiental do Rio Tramandaí.
Essas consequências não são imprevisíveis — são amplamente conhecidas, documentadas e evitáveis.
8. Conclusão: negar a ciência não é uma opção
Imbé vive hoje um grave conflito entre ciência e negacionismo técnico.
A supressão de vegetação, a destruição de APPs e a criação de ilhas de calor ocorrem no exato momento em que o mundo inteiro faz o oposto.
A emergência climática exige:
- responsabilidade técnica;
- respeito à legislação ambiental;
- planejamento urbano baseado na ciência;
- soluções baseadas na natureza;
- participação social qualificada.
Persistir no modelo atual é aprofundar vulnerabilidades, ampliar riscos e comprometer o futuro da população.
A proteção do Rio Tramandaí, da APP, da arborização urbana e do microclima local não é ideológica — é uma exigência técnica, legal e ética diante da maior crise ambiental da história contemporânea.
Excelentes e verdadeiras colocações, que correspondem também a questões que ocorrem em outros cidades balneários como Capão da Canoa.
ResponderExcluirExatamente.
ExcluirA situação exposta em Imbé não é um fato isolado, mas parte de um padrão preocupante que se repete em diversos municípios do Litoral Norte, como Capão da Canoa, Tramandaí, Xangri-Lá e Arroio do Sal.
O que diferencia Imbé é que hoje ela se tornou um caso emblemático, onde decisões recentes escancaram o conflito entre a ciência climática e práticas urbanísticas ultrapassadas, especialmente em áreas sensíveis como APPs, margens de rios e ambientes de restinga.
A emergência climática não reconhece limites administrativos. Os impactos sobre o microclima, a drenagem, o regime hídrico, a balneabilidade e o turismo afetam toda a região costeira como um sistema integrado.
Por isso, o debate não é contra uma cidade específica, mas contra um modelo de ocupação e intervenção que precisa ser urgentemente revisto em todo o Litoral Norte, sob pena de ampliarmos riscos ambientais, sociais e econômicos de forma irreversível.
Trazer essa discussão à luz é uma forma de proteger não apenas Imbé, mas o futuro dos balneários como um todo.