SC NÃO É UM EXEMPLO. PELO CONTRÁRIO

 


A defesa do porto em Arroio do Sal, apoiada no suposto “exemplo bem-sucedido” de Santa Catarina, não é apenas equivocada.
Ela é tecnicamente falsa, ambientalmente irresponsável e intelectualmente desonesta.

ATHOS STERN

Engenheiro, professor aposentado da Ufrgs

Ex-presidente e consultor da Associação Comunitária de Imbé - Braço Morto

Usar praias catarinenses como vitrine positiva ignora dados oficiais, despreza a oceanografia costeira e viola o princípio mais básico do planejamento ambiental: não importar modelos incompatíveis com o território.


SANTA CATARINA NÃO É MODELO. É UM CASO DOCUMENTADO DE DEGRADAÇÃO



Pesquisadores comprovam que microplásticos vindos dos portos de Itajaí e Imbituba estão chegando às praias de SC 

Em janeiro de 2026, Santa Catarina ultrapassou 100 pontos impróprios para banho, incluindo áreas turísticas consolidadas, praias centrais e ambientes historicamente valorizados. Trata-se de contaminação fecal recorrente, não episódica, associada a:

  • urbanização intensiva,
  • saneamento estruturalmente insuficiente,
  • pressão portuária e logística,
  • alteração hidrodinâmica costeira,
  • lançamento contínuo de efluentes difusos e pontuais.

Isso configura falha sistêmica de gestão costeira.

Quem cita Santa Catarina como “prova” de sucesso omite deliberadamente que:

  • a perda da balneabilidade é cumulativa,
  • os pontos impróprios se multiplicam ano após ano,
  • a degradação acompanha a densidade de infraestrutura pesada,
  • a recuperação, quando possível, exige décadas e bilhões em investimentos públicos.

Santa Catarina não refuta o risco.
Ela o comprova.


A COMPARAÇÃO É TECNICAMENTE VICIADA DESDE A ORIGEM

Mesmo os portos catarinenses frequentemente usados como exemplo estão implantados em baías e enseadas semi-confinadas, como Babitonga e Itajaí, ambientes que:

  • possuem menor troca hídrica com o mar aberto,
  • retêm sedimentos e contaminantes,
  • concentram a degradação dentro do sistema estuarino,
  • funcionam, na prática, como zonas de sacrifício ambiental.

👉 Mesmo com esse amortecimento natural, o resultado são praias impróprias em larga escala.

Portanto, o argumento pró-porto já fracassa antes de ser aplicado ao Rio Grande do Sul.


LITORAL NORTE DO RS: COSTA ABERTA, DISPERSÃO TOTAL E CONTAMINAÇÃO REGIONAL

O Litoral Norte do RS apresenta características oceanográficas radicalmente diferentes:

  • costa aberta, linear e rasa,
  • ausência total de baías protetoras,
  • predominância de correntes longitudinais paralelas à costa,
  • elevada mobilidade sedimentar,
  • alta conectividade hidrodinâmica entre municípios.

Nessas condições:

  • efluentes não se concentram, se propagam,
  • contaminantes não ficam no entorno do porto, se espalham por dezenas de quilômetros,
  • impactos não são locais, são regionais e cumulativos,
  • qualquer falha operacional ou estrutural afeta todo o litoral adjacente.

👉 Um porto em Arroio do Sal não polui apenas Arroio do Sal.
👉 Polui Capão da Canoa, Xangri-Lá, Atlântida, Imbé, Tramandaí e além.

Negar isso é negar oceanografia básica.


O PROJETO VIOLA PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DO PLANEJAMENTO AMBIENTAL

A implantação de um porto nesse contexto viola frontalmente:

  • princípio da precaução,
  • princípio da prevenção,
  • zoneamento ambiental costeiro,
  • a lógica da gestão integrada da zona costeira,
  • a compatibilidade entre uso do solo e capacidade de suporte ambiental.

Não se trata de debate ideológico.
Trata-se de incompatibilidade técnica objetiva.


ECONOMICAMENTE, O PORTO É UMA APUESTA CONTRA O TERRITÓRIO

O litoral vive de:

  • balneabilidade,
  • turismo difuso e contínuo,
  • pesca artesanal,
  • valorização imobiliária associada à qualidade ambiental.

O porto entrega:

  • empregos temporários e concentrados,
  • degradação permanente,
  • externalização de custos ambientais,
  • desvalorização imobiliária estrutural,
  • colapso do modelo turístico regional.

👉 Isso não é desenvolvimento. É substituição de uma economia funcional por um passivo ambiental permanente.


CONCLUSÃO: O ERRO QUE A CIÊNCIA JÁ ANTECIPOU

Um porto em Arroio do Sal não é uma aposta ousada.
É um erro técnico anunciado, já documentado em outros litorais, já registrado em relatórios oficiais, já explicado pela ciência costeira.

Santa Catarina mostra o depois.
O Litoral Norte do RS ainda pode evitar o antes.

Ø Porto em costa aberta não convive com praias limpas.

Ø Correntes paralelas não perdoam descuidos.

Ø Quando a água fica imprópria, o discurso afunda junto.

 


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