PESCA COLABORATIVA NA FOZ DO RIO TRAMANDAÍ
ATHOS STERN
Engenheiro, professor aposentado da Ufrgs
Ex-presidente e consultor da Associação Comunitária de Imbé - Braço Morto
A pesca colaborativa entre pescadores artesanais e botos, existente na foz do rio Tramandaí, constitui um dos fenômenos culturais e ecológicos mais raros do planeta.
Essa prática tradicional, transmitida entre gerações de pescadores do litoral sul do Brasil, foi reconhecida pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) como patrimônio cultural imaterial, consolidando seu valor histórico, ambiental e simbólico para a sociedade brasileira.
O encaminhamento do pedido de reconhecimento da pesca cooperativa na foz do rio Tramandaí foi conduzido pela ACIBM – Associação Comunitária de Imbé Braço Morto, com assessoramento científico do Centro de Estudos Costeiros, Limnológicos e Marinhos (CECLIMAR) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).não é apenas simbólico: ele representa a constatação oficial de que estamos diante de um patrimônio vivo, cultural e ecológico de relevância nacional e internacional.
O QUE É A PESCA COLABORATIVA
A chamada pesca colaborativa ocorre quando botos conduzem cardumes de tainhas em direção aos pescadores.
No momento adequado, o boto realiza um movimento característico — geralmente um mergulho ou batida de cauda — que funciona como sinal para o lançamento das redes.
Ao mesmo tempo, os botos se beneficiam da desorganização do cardume para capturar peixes.
Não se trata de domesticação nem treinamento. Trata-se de cooperação espontânea entre humanos e animais selvagens, construída ao longo de décadas de convivência.
Os pescadores reconhecem os botos como companheiros de trabalho, e muitos animais recebem nomes próprios, fruto da convivência cotidiana.
Os botos envolvidos nessa interação pertencem à espécie conhecida como boto-de-Lahille, cujo nome científico é:
Tursiops gephyreus
Esses golfinhos possuem sofisticado sistema de ecolocalização, emitindo sons que retornam em forma de eco ao encontrar obstáculos ou cardumes, permitindo localizar as tainhas e orientar a pesca.
UM FENÔMENO EXTREMAMENTE RARO NO PLANETA
A cooperação entre pescadores e golfinhos é extraordinariamente rara em escala mundial.
Historicamente ela foi registrada apenas em poucas regiões:
• Laguna
• Foz do Rio Tramandaí
• costa da Mauritânia, com o povo Imraguen
• rio Ayeyarwady River
Em praticamente todos os outros lugares do planeta essa prática desapareceu ou encontra-se em processo de desaparecimento.
Isso transforma a pesca colaborativa do sul do Brasil em um patrimônio cultural e ecológico de valor mundial.
AMBIENTES ONDE A PESCA OCORRE
A pesca com botos ocorre em estuários, regiões onde águas doces de rios ou lagoas encontram o oceano.
Esses ambientes concentram enorme biodiversidade e funcionam como berçários naturais de diversas espécies marinhas.
Ao mesmo tempo, são ambientes extremamente vulneráveis a impactos como:
• poluição
• pesca predatória
• crescimento urbano desordenado
• obras costeiras
Quando esses ambientes são alterados, os botos simplesmente abandonam o local, e a tradição desaparece.
O LITORAL NORTE DO RIO GRANDE DO SUL SOB PRESSÃO
O Litoral Norte do Rio Grande do Sul é a região do estado que mais cresce em população nas últimas décadas.
Esse crescimento vem acompanhado de pressões crescentes sobre os ecossistemas estuarinos, ameaçando atividades tradicionais como a pesca colaborativa.
A experiência internacional demonstra que quando o ambiente se degrada, a cooperação entre pescadores e botos desaparece.
REGISTRO DO PATRIMÔNIO IMATERIAL
Em 2017, o Conselho Pastoral dos Pescadores (CPP-Sul) encaminhou ao IPHAN o pedido de registro da pesca artesanal com auxílio de botos em Laguna como patrimônio imaterial do Brasil.
Em 2020, a ACIBM – Associação Comunitária de Imbé Braço Morto, juntamente com o Projeto Botos da Barra da UFRGS, apresentou pedido semelhante para a pesca cooperativa no rio Tramandaí.
Esse processo consolidou o reconhecimento da importância cultural, científica e ambiental dessa prática.
POR QUE ESSA TRADIÇÃO DESAPARECEU EM OUTROS LUGARES
Estudos científicos indicam que o desaparecimento da pesca colaborativa ocorreu principalmente devido a transformações ambientais profundas.
Entre os fatores mais relevantes estão:
Degradação ambiental
• poluição dos estuários
• redução dos cardumes
• pesca industrial predatória
• tráfego intenso de embarcações
Intervenções humanas no litoral
Obras costeiras alteram drasticamente o ambiente:
• dragagens
• portos
• pontes
• barragens
• urbanização costeira
Essas intervenções modificam correntes, profundidade e dinâmica dos estuários, levando os golfinhos a abandonar áreas tradicionais.
AMEAÇAS ATUAIS AO RIO TRAMANDAÍ
Hoje existem iniciativas em andamento que podem comprometer seriamente o equilíbrio ambiental do estuário do Rio Tramandaí, colocando em risco direto a pesca colaborativa.
Entre elas destacam-se:
1. Lançamento de efluentes de ETEs no rio Tramandaí
2. Construção de pontes estaiadas na foz do rio
3. Construção de portos em Arroio do Sal
No caso da implantação de portos em mar aberto, a alteração das correntes marítimas paralelas ao litoral — característica do litoral norte do Rio Grande do Sul — pode provocar impactos ambientais amplos e irreversíveis sobre os estuários da região.
UM PATRIMÔNIO VIVO
A pesca colaborativa é um exemplo extraordinário de convivência entre cultura humana e natureza.
Ela demonstra que conhecimento tradicional, biodiversidade e sustentabilidade podem coexistir.
Preservá-la significa proteger:
• cultura tradicional
• biodiversidade costeira
• conhecimento ecológico acumulado por gerações
CONCLUSÃO – UMA DECISÃO QUE A SOCIEDADE PRECISA TOMAR
A sociedade do litoral norte precisa enfrentar uma pergunta direta e inevitável:
Vamos permitir a destruição de um patrimônio vivo reconhecido oficialmente pelo IPHAN?
Vamos aceitar que:
• efluentes de ETEs sejam lançados no Rio Tramandaí,
• pontes sejam construídas na foz do rio,
• e grandes portos sejam implantados em Arroio do Sal?
Essas intervenções não significariam apenas o fim da pesca colaborativa.
Elas podem significar também:
• degradação da qualidade das águas
• perda da balneabilidade
• impactos na pesca artesanal
• prejuízos ao turismo
• contaminação ambiental
• perda da atratividade da região para viver e investir.
O epílogo desse processo é conhecido em várias regiões do mundo:
primeiro desaparecem os botos, depois os cardumes, depois a pesca, depois a qualidade ambiental e, por fim, o próprio valor do litoral como lugar para viver, trabalhar e receber visitantes.
A destruição de um estuário nunca termina no estuário. Ela se espalha por toda a região.
Se nada for feito, o resultado final será inevitável:
o fim da pesca colaborativa, o declínio da qualidade ambiental do litoral norte e o enfraquecimento do turismo que sustenta a economia regional.
Proteger o rio Tramandaí e seus estuários não é apenas preservar uma tradição — é defender o futuro do litoral norte do Rio Grande do Sul.

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