MACRODRENAGEM EM IMBÉ: UM PROBLEMA TÉCNICO QUE VIROU PROBLEMA DA POPULAÇÃO


ATHOS STERN

Engenheiro, professor aposentado da Ufrgs

Ex-presidente e consultor da Associação Comunitária de Imbé - Braço Morto


A forma como uma cidade trata a drenagem urbana não é um detalhe técnico — é uma decisão que impacta diretamente a vida das pessoas. Em Imbé, o que se observa hoje não é apenas um problema de engenharia. É um problema público, com consequências que recaem sobre moradores, comerciantes e toda a comunidade.

1. QUANDO A NATUREZA TRABALHAVA A FAVOR

Historicamente, o rio Tramandaí funcionava como o principal eixo de drenagem natural. As águas das chuvas escoavam por gravidade até o rio, respeitando a topografia e o funcionamento natural da bacia.

As valas de drenagem existentes cumpriam um papel fundamental: eram soluções simples, eficientes e compatíveis com a realidade local — solo arenoso, baixa declividade e lençol freático elevado.


Este sistema funcionou por décadas


2. O QUE MUDOU — E POR QUE IMPORTA

A fixação da barra do rio alterou profundamente a dinâmica natural da região. O antigo leito (hoje conhecido como Braço Morto) perdeu sua função, sendo progressivamente assoreado.

Com isso, o sistema perdeu sua saída natural.

O resultado foi inevitável:

  • redução da capacidade de escoamento
  • aumento do nível da água
  • crescimento dos alagamentos ao longo do tempo

Esse cenário exigia planejamento técnico. Não improviso.

3. O ERRO ATUAL: SOLUÇÕES QUE NÃO FUNCIONAM

Em vez de um plano integrado de macrodrenagem, o que se vê são intervenções isoladas, como a instalação de tubulações enterradas.

O problema é que essas soluções desconsideram fatores básicos:

  • lençol freático elevado
  • falta de declividade suficiente
  • diferenças entre bacias hidrográficas

Na prática, isso significa que essas tubulações operam em condição inadequada, favorecendo:

  • entrada de areia (assoreamento interno)
  • perda de capacidade de escoamento
  • obstrução precoce

Ou seja: não resolvem o problema — e ainda criam novos.

4. UM PONTO CRÍTICO QUE NÃO PODE SER IGNORADO

Em áreas como Imbé, a drenagem depende de detalhes muito sensíveis:

  • pequenas variações de nível
  • comportamento do lençol freático
  • interação entre solo e água

Instalar tubulações abaixo do nível do lençol freático, nessas condições, não é solução técnica adequada. É uma escolha que compromete o funcionamento do sistema desde o início.

5. O QUE A ENGENHARIA EXIGE

Projetos de macrodrenagem não podem ser feitos “por tentativa”.

Eles exigem:

  • estudos hidrológicos (chuvas e vazões)
  • dimensionamento hidráulico adequado
  • análise da bacia como um todo
  • compatibilização com o solo e o lençol freático
  • licenciamento ambiental

Sem isso, o resultado é previsível: obras que não funcionam.

6. UMA SOLUÇÃO EXISTIA — E FOI IGNORADA

Do ponto de vista técnico, havia um caminho claro:

  • reconstituir o canal no antigo leito do rio
  • restabelecer a declividade natural
  • reconectar o sistema de valas existente
  • trabalhar com a lógica da natureza, e não contra ela

Esta abordagem respeita o funcionamento da água — e aumenta a eficiência do sistema


7. QUEM PAGA A CONTA

Quando obras são executadas sem base técnica adequada, o prejuízo não fica apenas no papel.

Ele aparece na prática:



Alagamento em toda avenida Garibaldi

Avenida São Miguel (norte)

Alagamento da Av. Frederico Westphalen após meia hora de chuva forte


Avenida São Miguel (sul)


  • ruas alagadas
  • imóveis desvalorizados
  • prejuízos ao comércio
  • insegurança para moradores

E, além disso:

  • recursos públicos são utilizados em soluções ineficientes
  • sistemas precisam ser refeitos em pouco tempo

Ou seja: a população paga duas vezes.

8. RESPONSABILIDADE NÃO É OPÇÃO

A execução de obras sem observância de critérios técnicos mínimos levanta questões sérias.

Não se trata de diferença de opinião entre engenharias.

Trata-se de:

  • ausência de dimensionamento adequado
  • adoção de soluções incompatíveis com o local
  • risco de desperdício de recursos públicos

Quando erros são previsíveis — e mesmo assim acontecem — a discussão deixa de ser apenas técnica.

Passa a ser também administrativa e, eventualmente, jurídica.

9. O QUE PRECISA SER FEITO

Diante da situação, é fundamental:

  • interromper a expansão de soluções inadequadas
  • exigir transparência nos projetos e cálculos técnicos
  • realizar avaliação independente por especialistas
  • considerar alternativas baseadas na realidade local

10. CONCLUSÃO

Imbé não precisa de obras que aparentem solução.

Precisa de soluções que funcionem.

Substituir um sistema adaptado ao território por outro incompatível não é avanço.

É um erro que traz consequências reais para a população.

Macrodrenagem não é apenas obra pública.

É planejamento, técnica e responsabilidade com quem vive na cidade.

E QUANDO ISSO NÃO É RESPEITADO, O PROBLEMA DEIXA DE SER TÉCNICO — E PASSA A SER DE TODOS.

 








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