ANÁLISE TÉCNICA CRÍTICA DO RELATÓRIO DE IMPACTO AMBIENTAL (RIMA) – TUP PORTO MERIDIONAL
ATHOS STERN
Engenheiro, professor aposentado da Ufrgs
Ex-presidente e consultor da Associação Comunitária de Imbé -Braço Morto
1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS
A presente análise técnica crítica tem por objetivo examinar o conteúdo do Relatório de Impacto Ambiental (RIMA) do empreendimento denominado Terminal de Uso Privado (TUP) Porto Meridional, previsto para o município de Arroio do Sal, no litoral norte do Estado do Rio Grande do Sul.
O estudo busca avaliar, de forma técnica, científica e juridicamente fundamentada, a consistência das informações apresentadas
A avaliação foi realizada com base nas informações constantes no próprio RIMA, considerando os meios físico, biótico e socioeconômico, além dos princípios da prevenção, da precaução, do desenvolvimento sustentável, da função socioambiental do território e da proteção dos ecossistemas costeiros.
O empreendimento possui dimensão excepcionalmente elevada, envolvendo:
- Quebra-mar principal de aproximadamente 3,5 km;
- Canal de acesso dragado a 18 metros de profundidade;
- dragagem superior a 8,56 milhões de m³;
- extensos aterros hidráulicos;
- terminais de contêineres, granéis sólidos, líquidos e GNL;
- intensa movimentação marítima e terrestre;
- profundas alterações na dinâmica costeira regional.
Embora o RIMA apresente linguagem tecnicamente estruturada e significativo esforço descritivo, a presente análise crítica identifica insuficiências metodológicas relevantes, omissões técnicas e fragilidades ambientais significativas quanto à demonstração da viabilidade ambiental do empreendimento.
2. FRAGILIDADES GERAIS DO RIMA
2.1 Caráter excessivamente descritivo e insuficientemente analítico
O documento concentra-se predominantemente na descrição das estruturas projetadas, tecnologias operacionais e capacidades logísticas, porém apresenta aprofundamento insuficiente quanto:
- Aos Impactos
- aos efeitos ambientais permanentes;
- aos cenários críticos de longo prazo;
- às incertezas científicas;
- aos riscos ambientais futuros;
- à vulnerabilidade climática regional.
Em diversos trechos observa-se predominância de narrativa justificadora do empreendimento, em detrimento de avaliação ambiental crítica, integrada e imparcial.
2.2 Insuficiência da aplicação do princípio da precaução
O princípio da precaução exige que, diante de incertezas científicas relevantes e potencial de dano ambiental significativo ou irreversível, prevaleça a proteção preventiva do meio ambiente.
Todavia, o próprio RIMA:
- reconhece elevada variabilidade climática regional;
- admite ocorrência crescente de eventos extremos;
- reconhece intensa dinâmica sedimentar costeira;
- admite necessidade permanente de dragagens;
- prevê intervenções estruturais de grande magnitude.
Apesar disso, o estudo não demonstra, com robustez técnico-científica suficiente, que os impactos futuros serão efetivamente controláveis, mitigáveis ou reversíveis.
3. FRAGILIDADES RELACIONADAS À DINÂMICA COSTEIRA
3.1 Interferência artificial no transporte sedimentar
O empreendimento prevê:
- quebra-mar de grande extensão;
- espigão transversal;
- alteração da circulação costeira;
- Canal Dragado;
- estruturas offshore permanentes.
O próprio RIMA reconhece que o espigão terá função de interromper o transporte litorâneo sul–norte de sedimentos, evidenciando interferência direta na morfodinâmica costeira natural.
Entretanto, o estudo não apresenta modelagem sedimentológica de longo prazo suficientemente robusta para demonstrar:
- o comportamento futuro das praias adjacentes;
- os riscos de erosão progressiva;
- os impactos cumulativos regionais;
- a necessidade permanente de dragagens corretivas;
- possíveis alterações permanentes da linha de costa.
A ausência desses cenários representa fragilidade técnica relevante.
3.2 Potencial indução de erosão costeira
Experiências nacionais e internacionais demonstram que estruturas rígidas de proteção marítima frequentemente provocam:
- retenção artificial de sedimentos;
- erosão em áreas vizinhas;
- estreitamento de praias;
- instabilidade costeira;
- necessidade contínua de intervenções artificiais.
O RIMA não apresenta avaliação regional integrada suficientemente aprofundada acerca dos possíveis impactos erosivos cumulativos sobre o litoral adjacente.
Imagem de como ficará a área do porto (por I.A.)
4. FRAGILIDADES RELACIONADAS À DRAGAGEM E AO ATERRO HIDRÁULICO
4.1 Elevado volume de dragagem
O empreendimento prevê dragagem superior a 8,56 milhões de m³ de sedimentos marinhos, caracterizando intervenção de grande magnitude ambiental.
Todavia, o RIMA não demonstra adequadamente:
- impactos ecotoxicológicos completos;
- dispersão cumulativa da pluma sedimentar;
- bioacumulação de contaminantes;
- impactos bentônicos permanentes;
- efeitos sobre a reprodução de espécies marinhas.
4.2 Risco permanente de assoreamento
O próprio projeto reconhece elevada dinâmica sedimentar regional, indicando tendência natural de assoreamento contínuo.
Mesmo assim, o RIMA não apresenta:
- estimativas transparentes das futuras dragagens de manutenção;
- projeções anuais de deposição sedimentar;
- avaliação dos custos ambientais permanentes;
- análise cumulativa das dragagens recorrentes.
4.3 Fragilidade geotécnica dos aterros hidráulicos
Os aterros hidráulicos serão implantados sobre ambiente costeiro arenoso, caracterizado por:
- lençol freático superficial;
- sedimentos recentes;
- influência marinha permanente;
- elevada variabilidade hidrodinâmica.
Apesar disso, o RIMA não demonstra adequadamente:
- estabilidade estrutural de longo prazo;
- riscos de recalque;
- vulnerabilidade climática;
- risco de liquefação;
- comportamento frente à elevação do nível do mar.
5. FRAGILIDADES RELACIONADAS ÀS MUDANÇAS CLIMÁTICAS
5.1 Reconhecimento parcial do problema climático
O próprio RIMA reconhece:
- aumento de precipitações extremas;
- ressacas severas;
- ciclones extratropicais;
- enchentes recorrentes;
- crescente variabilidade climática regional.
Todavia, inexiste avaliação suficientemente robusta acerca:
- da elevação futura do nível do mar;
- da resiliência estrutural do porto;
- dos impactos de tempestades extremas futuras;
- da sustentabilidade operacional de longo prazo.
5.2 Incompatibilidade potencial entre infraestrutura rígida e litoral dinâmico
A implantação de estruturas rígidas permanentes em ambiente costeiro altamente dinâmico tende a ampliar vulnerabilidades futuras.
O RIMA não demonstra adequadamente:
- adaptação climática progressiva;
- flexibilidade operacional;
- cenários de falha estrutural;
- protocolos de resposta para eventos extremos severos.
6. FRAGILIDADES RELACIONADAS À BIODIVERSIDADE
6.1 Insuficiência da avaliação ecossistêmica integrada
Embora o RIMA apresente inventários ambientais e diagnósticos setoriais, observa-se fragilidade na análise integrada dos ecossistemas costeiros e lagunares.
A região possui:
- dunas;
- banhados;
- restingas;
- lagoas costeiras;
- ambientes fluviomarinhos;
- áreas de elevada biodiversidade.
Mesmo assim, o estudo não aprofunda adequadamente:
- conectividade ecológica;
- impactos indiretos;
- fragmentação de habitats;
- efeitos sinérgicos cumulativos.
6.2 Lagoa Itapeva
A Lagoa Itapeva é reconhecida no próprio RIMA como área ambientalmente relevante.
Entretanto, os impactos indiretos sobre:
- circulação hídrica;
- fauna aquática;
- banhados associados;
- qualidade da água;
- conectividade ecológica,
foram tratados de forma insuficiente.
7. FRAGILIDADES RELACIONADAS AO MEIO SOCIOECONÔMICO
7.1 Subestimação dos impactos territoriais
O RIMA enfatiza benefícios econômicos e logísticos, porém minimiza potenciais impactos sobre:
- turismo;
- paisagem costeira;
- identidade territorial;
- pesca artesanal;
- valorização e desvalorização imobiliária;
- pressão urbana futura;
- conflitos de uso do solo.
7.2 Pressão sobre a infraestrutura regional
O empreendimento prevê movimentação extremamente elevada de:
- caminhões;
- cargas;
- trabalhadores;
- embarcações.
Mesmo assim, o estudo não apresenta aprofundamento suficiente sobre:
- saturação viária regional;
- impactos urbanísticos cumulativos;
- crescimento urbano desordenado;
- pressão sobre saneamento básico;
- impactos habitacionais.
8. FRAGILIDADES DAS ALTERNATIVAS LOCACIONAIS
8.1 Limitações metodológicas
Embora o RIMA apresente três alternativas locacionais, observam-se:
- análise excessivamente simplificada;
- ausência de avaliação multicritério aprofundada;
- reduzida transparência metodológica;
- insuficiência de análise comparativa cumulativa.
8.2 Exclusão insuficientemente justificada de cenários alternativos
O RIMA concentra-se na justificativa da "Alternativa 01" como opção preferencial para implantação do TUP Porto Meridional, sem apresentar análise comparativa suficientemente robusta e transparente sobre outras alternativas locacionais possíveis.
Em empreendimentos costeiros de grande porte, espera-se avaliação técnica comparativa abrangente entre diferentes cenários, considerando critérios ambientais, climáticos, sociais e logísticos.
Entretanto, o estudo não desenvolve adequadamente:
- a justificativa técnica para exclusão de outras áreas do litoral;
- a comparação ampliada dos riscos associados às mudanças climáticas;
- a análise integrada dos impactos cumulativos regionais.
Além disso, o RIMA não demonstra de forma clara se foram avaliadas alternativas para a da área costeira diretamente vinculada ao empreendimento, nem apresenta comparação aprofundada entre outras possibilidades logísticas existentes no Estado.
Essa limitação fragiliza a avaliação da viabilidade ambiental do projeto, pois impede verificar se a área escolhida representa, efetivamente, a alternativa de menor impacto ambiental e menor risco socioambiental para o litoral gaúcho.
9. FRAGILIDADES RELACIONADAS AO GNL E AOS GRANÉIS LÍQUIDOS
9.1 Riscos tecnológicos relevantes
O terminal de GNL e os terminais de combustíveis envolvem:
- substâncias inflamáveis;
- risco de explosões;
- vazamentos;
- acidentes tecnológicos;
- incêndios de grande magnitude.
Todavia, o RIMA apresenta abordagem limitada acerca:
- da análise quantitativa de riscos;
- de cenários acidentais extremos;
- dos efeitos cumulativos;
- da evacuação populacional;
- da vulnerabilidade regional.
10. FRAGILIDADES RELACIONADAS À GOVERNANÇA AMBIENTAL
10.1 Dependência excessiva de monitoramentos futuros
Em diversos trechos, o RIMA transfere a solução de incertezas para:
- programas futuros;
- monitoramentos posteriores;
- planos de controle;
- medidas compensatórias.
Entretanto, monitoramento ambiental não elimina impactos.
A existência de programas ambientais futuros não substitui a necessidade de demonstração prévia, robusta e cientificamente fundamentada da viabilidade ambiental do empreendimento.
11. CONCLUSÃO TÉCNICA FINAL
A análise técnica crítica do RIMA do Porto Meridional evidencia que o empreendimento possui potencial de provocar alterações ambientais profundas, permanentes e regionalmente significativas sobre o litoral norte gaúcho.
Embora o estudo apresente extensa descrição técnica das estruturas e operações projetadas, permanecem fragilidades relevantes quanto:
- à dinâmica sedimentar costeira;
- aos impactos cumulativos;
- às mudanças climáticas;
- à estabilidade dos aterros hidráulicos;
- às dragagens permanentes;
- à erosão costeira;
- à biodiversidade regional;
- à avaliação de riscos tecnológicos;
- à sustentabilidade ambiental de longo prazo.
As principais limitações identificadas incluem:
- insuficiência de modelagens prospectivas;
- ausência de cenários climáticos robustos;
- subestimação de impactos cumulativos;
- avaliação incompleta da dinâmica costeira;
- dependência excessiva de medidas mitigadoras futuras;
- insuficiência da abordagem ecossistêmica integrada;
- fragilidade na avaliação de riscos permanentes.
Diante da magnitude do empreendimento e da elevada sensibilidade ambiental da região costeira afetada, conclui-se que o RIMA, na forma apresentada, não demonstra de maneira plenamente satisfatória a viabilidade ambiental do Porto Meridional, permanecendo incertezas técnicas relevantes que exigem aprofundamento científico, modelagens complementares e avaliações independentes antes de eventual licenciamento ambiental definitivo.
12. ANÁLISE TÉCNICA, CIENTÍFICA, JURÍDICA E AMBIENTAL
A análise técnica crítica do RIMA do Porto Meridional evidencia fragilidades estruturais relevantes na demonstração da viabilidade ambiental do empreendimento, especialmente diante da elevada sensibilidade ecológica, geomorfológica, climática e socioeconômica do litoral norte do Rio Grande do Sul.
Embora o estudo apresente extensa descrição operacional e detalhamento das estruturas portuárias projetadas, permanecem lacunas técnicas significativas relacionadas à dinâmica sedimentar costeira, aos impactos cumulativos regionais, às mudanças climáticas, à erosão costeira, à estabilidade dos aterros hidráulicos, às dragagens permanentes, à biodiversidade marinha e aos riscos tecnológicos associados à implantação e operação continuada do empreendimento.
Observa-se insuficiência de modelagens prospectivas de longo prazo, ausência de cenários climáticos robustos e limitação na abordagem ecossistêmica integrada, comprometendo a compreensão adequada dos processos costeiros e dos potenciais efeitos sinérgicos, cumulativos e irreversíveis sobre a faixa litorânea.
O estudo demonstra, ainda, excessiva dependência de medidas mitigadoras futuras e de programas de monitoramento posteriores, sem comprovação técnica-científica suficiente acerca de sua efetiva capacidade de neutralizar, compensar ou controlar impactos permanentes e progressivos.
Do ponto de vista científico, o RIMA apresenta elevado grau de incerteza residual em aspectos essenciais à segurança ambiental do empreendimento, especialmente quanto:
- à evolução da linha de costa;
- ao comportamento hidrodinâmico regional;
- aos processos de erosão induzida;
- ao assoreamento diferencial;
- à resposta ambiental do sistema costeiro frente às alterações artificiais previstas.
Além disso, verifica-se subavaliação dos impactos cumulativos e insuficiente análise regional integrada, sobretudo em relação aos efeitos combinados das obras portuárias sobre:
- ecossistemas costeiros;
- pesca artesanal;
- balneabilidade;
- turismo;
- dinâmica sedimentar;
- ocupação urbana do litoral norte gaúcho.
A ausência de avaliação comparativa robusta entre cenários alternativos de localização e operação também limita a demonstração de que a alternativa escolhida represente, efetivamente, a solução ambientalmente menos impactante.
Sob o enfoque jurídico-ambiental, tais limitações comprometem a observância plena dos princípios da prevenção, da precaução, da informação ambiental adequada e da vedação ao retrocesso ambiental, amplamente reconhecidos pelo ordenamento jurídico brasileiro e pelo direito ambiental internacional.
Em empreendimentos de grande magnitude e elevado potencial de impacto irreversível, a ausência de segurança técnico-científica suficiente impede que o licenciamento ambiental se fundamente em hipóteses mitigatórias futuras, em monitoramentos posteriores ou em cenários de baixa confiabilidade prospectiva.
Dessa forma, conclui-se que o RIMA, na forma apresentada, não demonstra de maneira plenamente satisfatória a viabilidade ambiental do Porto Meridional, persistindo incertezas técnicas substanciais e riscos ambientais potencialmente permanentes, regionais e de longa duração.
Tais fragilidades exigem aprofundamento científico independente, complementação das modelagens ambientais, revisão metodológica abrangente e realização de avaliações técnicas adicionais antes de qualquer deliberação definitiva acerca do licenciamento ambiental do empreendimento.
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