ERROS E OMISSSÕES NO EIA DO PORTO DE ARROIO DO SAL
ATHOS STERN
Engenheiro, professor aposentado da Ufrgs
Consultor da Associação Comunitária de Imbé - Braço Morto
A defesa do meio ambiente é um dever de todos nós — do poder público, das instituições e, principalmente, da sociedade civil. Nenhuma grande obra pode ser decidida apenas por empresas ou governos, sem a escuta e o envolvimento das comunidades que serão diretamente afetadas. É nesse contexto que se torna essencial a participação efetiva dos moradores, veranistas e associações do Litoral Norte nas discussões sobre o projeto do Porto Meridional, proposto para o município de Arroio do Sal/RS.
As audiências públicas, que deverão ocorrer durante o processo de licenciamento ambiental, são o momento em que cada cidadão pode se manifestar, fazer perguntas, solicitar esclarecimentos e apresentar preocupações legítimas. Mas para que essa participação seja de fato efetiva, é necessário que todos compreendam o conteúdo técnico do Estudo e do Relatório de Impacto Ambiental (EIA/RIMA).
Por isso, este Relatório Didático foi elaborado com linguagem simples e exemplos claros, para que qualquer pessoa possa entender o que está em jogo — o que o porto propõe, quais são os possíveis impactos ambientais, sociais e econômicos, e quais erros e omissões foram identificados no estudo apresentado pela empresa.
A fiscalização cidadã, somada à atuação dos órgãos competentes como o IBAMA e a ANTAQ, é o que garante que decisões complexas, como a implantação de um porto em mar aberto, sejam tomadas com base em informações verdadeiras, completas e transparentes.
Quando a comunidade se informa, questiona e participa, ela defende não apenas o meio ambiente, mas o seu próprio futuro, o turismo, a pesca artesanal, a qualidade de vida e o equilíbrio das praias e ecossistemas que fazem parte da identidade do Litoral Norte do Rio Grande do Sul.
Assim, este documento tem como propósito preparar a população para participar de maneira consciente e fundamentada das audiências públicas, ampliando o debate e fortalecendo o direito de todos a um ambiente equilibrado, conforme garante o artigo 225 da Constituição Federal.
RELATÓRIO DIDÁTICO – EIA/RIMA PORTO MERIDIONAL (ARROIO DO SAL/RS)
Referência: Parecer Técnico nº 67/2025 – Comar/CGMac/Dilic
Empreendimento: Terminal Portuário de Uso Privado Porto Meridional
Interessado: AOS Participações Ltda
1. Objetivo
Este relatório tem como objetivo explicar de forma clara e acessível os principais erros, riscos e recomendações do estudo ambiental do Porto Meridional. O conteúdo serve como base para ações da comunidade, associações ambientalistas e órgãos públicos (IBAMA e ANTAQ), permitindo entender por que o estudo precisa ser revisado antes de qualquer aprovação.
2. Principais erros do estudo ambiental (EIA/RIMA)
2.1 Sumário confuso e difícil de usar:
o Imagine abrir um livro e encontrar o índice apenas na primeira página, sem referências aos capítulos seguintes. É assim que o estudo foi apresentado, dificultando o acompanhamento do conteúdo.
2.2 Mapas e figuras ilegíveis:
Os mapas são pequenos, pouco nítidos e sem legendas claras. É como olhar uma fotografia borrada e tentar identificar objetos pequenos — informações importantes sobre ecossistemas e áreas de impacto ficam invisíveis.
2.3 Textos repetidos e confusos:
Trechos do estudo aparecem mais de uma vez, o que deixa a leitura cansativa e dificulta o entendimento de quais dados realmente importam.
2.4 Linguagem que sugere aprovação:
Termos como “será implantado” podem dar a impressão de que o porto já foi aprovado, quando na verdade ele ainda depende de análise ambiental.
2.5 Explicações técnicas insuficientes:
Palavras complexas e nomes científicos aparecem sem explicação, dificultando a compreensão de pessoas que não são especialistas.
2.6 Falta de destaque a espécies e ecossistemas importantes:
O estudo não mostra claramente as espécies ameaçadas, endêmicas ou de interesse da pesca artesanal, deixando a população sem entender os riscos reais ao meio ambiente.
2.7 Compensações ambientais confusas:
As medidas de compensação misturam regras de diferentes leis, sem explicar claramente como cada ação protege o meio ambiente.
3. Impactos ambientais, sociais e econômicos
Para facilitar, dividimos os impactos em ambientais, climáticos, sociais e legais, explicando com exemplos simples:
A. Impactos ambientais diretos
- Erosão de praias e dunas:
As dragagens e construções em mar aberto podem alterar a movimentação natural da areia, provocando perda de praias em alguns pontos e acúmulo de sedimentos em outros. É como mexer no fluxo de um rio: a água muda de curso e causa problemas em áreas que antes eram estáveis. - Perda de habitats marinhos:
Espécies de peixes, crustáceos e plantas marinhas podem perder seu espaço para viver, reproduzir e alimentar-se. Isso afeta também a pesca artesanal, que depende dessas espécies para sobreviver. - Poluição química e sonora:
Navios grandes podem derramar óleo e combustíveis e gerar barulho subaquático que atrapalha a comunicação e a vida de peixes, tartarugas e cetáceos.
B. Impactos climáticos e de segurança
- Elevação do nível do mar e tempestades:
Estruturas fixas no mar podem se tornar perigosas se o mar subir mais rápido que o previsto ou se tempestades fortes atingirem a região, colocando em risco tanto a operação do porto quanto o litoral próximo.
C. Impactos sociais e econômicos
- Trânsito e segurança:
A chegada de caminhões e veículos pesados aumenta o risco de acidentes e prejudica a mobilidade urbana. - Turismo e qualidade de vida:
O porto pode transformar a vocação turística da região, diminuindo a beleza natural das praias e o prazer de morar ou visitar a cidade. - Pesca artesanal:
A atividade pode ser prejudicada pelo tráfego de navios e pela alteração dos habitats, afetando a renda de famílias que dependem do mar.
D. Impactos legais e institucionais
- Falta de transparência:
Sem acesso aos dados brutos e modelagens do estudo, é impossível que universidades ou consultores independentes verifiquem se as previsões de impacto estão corretas. - Desconsideração de áreas protegidas:
O estudo não considerou a zona de amortecimento de Unidade de Conservação Estadual, que deve ser protegida conforme a lei.
4. Recomendações detalhadas
Para corrigir os problemas e permitir análise segura do porto, recomendamos:
4.1 Organizar melhor o estudo:
· Criar sumário detalhado e legível;
· Apresentar mapas e figuras grandes, claras e próximas ao texto correspondente;
· Evitar repetição de informações.
4.2 Adequar a linguagem:
· Usar termos como “implantação prevista”, evitando impressão de aprovação antecipada;
· Explicar termos técnicos com notas de rodapé ou exemplos simples.
4.3 Completar o diagnóstico ambiental:
· Destacar espécies ameaçadas e ecossistemas sensíveis;
· Avaliar efeitos cumulativos sobre fauna e flora;
· Mostrar impactos específicos sobre a pesca artesanal.
4.4 Esclarecer medidas de compensação:
· Diferenciar ações de acordo com cada lei (SNUC e Mata Atlântica);
· Explicar como cada medida ajuda a proteger o meio ambiente.
4.5 Análise socioeconômica clara:
· Detalhar efeitos sobre turismo, mobilidade urbana e economia local;
· Propor medidas para reduzir impactos negativos sobre moradores e trabalhadores locais.
4.6 Garantir transparência e participação pública:
· Disponibilizar dados brutos e modelagens para auditoria independente;
· Realizar audiências públicas explicativas, usando mapas, imagens e fluxogramas;
· Criar materiais educativos sobre impactos e medidas mitigadoras, para uso da comunidade.
4.7 Considerar áreas de conservação:
· Avaliar e proteger a zona de amortecimento de Unidades de Conservação Estadual;
· Integrar recomendações do órgão ambiental estadual.
5. Conclusão
O estudo apresentado pelo Porto Meridional não atende aos requisitos técnicos e de comunicação.
Sem correções:
· Os riscos ambientais, sociais e climáticos não estão claramente apresentados;
· A população local não consegue entender os impactos;
· A aprovação do porto violaria o princípio da precaução ambiental.
Portanto, o estudo deve ser revisado e ampliado, com apresentação clara, imagens e explicações acessíveis, permitindo participação efetiva da sociedade e fiscalização pelos órgãos competentes.
De acordo prof... mas como agir?
ResponderExcluirParticipar de um grupo que defenda o meio ambiente, como por exemplo a ACIBM, que luta a mais de 40 anos na defesa de Imbé, Tramandaí e todo o litoral norte.
ExcluirSou moradora,contra a construção do porto, pois irá terminar com a nossa tranquilidade, não trará empregos diretos, pois precisa de mão de obra especializada e principalmente afetará o ecossistema.
ResponderExcluirEstás correta, te associe a uma associação que lute pela preservação do meio ambiente, localizada no litoral norte.
ExcluirOlá Professor Athos. Como posso ter acesso ao EIA-RIMA? Existe algum link público para ele?
ResponderExcluirO acesso é só solicitar ao IBAMA. Somente o autorizado pode acessar.
ExcluirOi Professor Athos. Sabe para quem eu devo solicitar? Por email? Obrigado
Excluir