MUDANÇAS CLIMÁTICAS: UM ALERTA DOS CIENTISTAS
ATHOS STERN
Engenheiro, professor aposentado da Ufrgs
Ex - presidente e consultor da Associação Comunitária de Imbé - Braço Morto
São preocupantes as evidências científicas apresentadas tanto no Sexto Relatório de Avaliação do IPCC – Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, o estudo mais importante já realizado no mundo sobre eventos climáticos extremos, quanto no novo relatório do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS (IPH), que detalha projeções específicas para o Rio Grande do Sul e suas bacias hidrográficas.
Ambos os estudos convergem para um ponto incontestável:
O RS está entrando em uma era de chuvas mais intensas, enchentes mais severas e eventos extremos cada vez mais frequentes e destrutivos.
O que a ciência está alertando
1. A atmosfera mais quente retém mais vapor, produzindo tempestades repentinas, volumosas e muito acima das médias históricas.
2. O IPCC demonstra que eventos de chuva “raros”, de 50 ou 100 anos, têm hoje 2 a 5 vezes mais chance de ocorrer.
3. O relatório do IPH confirma que, nas bacias que alimentam o Litoral Norte e o Rio Tramandaí, as próximas décadas devem registrar:
o Elevação de até 3 metros nos níveis dos rios da Serra em eventos extremos;
o Ultrapassagem em até 1 metro dos atuais sistemas de proteção na Região Metropolitana e no Guaíba;
o Aumento súbito da vazão e do escoamento superficial, pressionando lagos, lagoas e canais costeiros.
Esses cenários não são hipotéticos. Já estão em curso — e o desastre de 2024 no RS é uma demonstração clara das consequências de se ignorar a ciência.
Riscos diretos ao Litoral Norte, ao Rio Tramandaí e a Imbé
O sistema ambiental do Litoral Norte — composto por lagoas, dunas, banhados, valas de drenagem, rios e restingas — é extremamente sensível ao aumento das vazões provenientes da Serra e da Região Metropolitana.
Os estudos indicam que:
- As lagoas de Tramandaí, do Armazém e o Lago do Braço Morto podem sofrer aumento repentino da lâmina d’água;
- Áreas hoje consideradas seguras podem se tornar inundáveis;
- A supressão de valas de drenagem, o aterramento de banhados e a impermeabilização urbana aumentam drasticamente o risco de danos;
- Obras apressadas, sem estudos ambientais ou hidrológicos completos, potencializam desastres.
Em um clima mais instável, qualquer intervenção mal planejada — seja no centro de Imbé, seja na faixa costeira — pode transformar-se em catalisador de enchentes ou colapsos de drenagem.
O que cabe às autoridades diante deste quadro alarmante:
1. Nenhuma obra urbana que envolva drenagem, supressão de banhados, valas, tubulações enterradas ou alterações nos cursos d’água pode prosseguir sem estudos completos, incluindo:
o modelagem hidrológica atualizada,
o avaliação de impacto climático,
o análise de risco cumulativo,
o e licenciamento ambiental adequado.
2. A Prefeitura de Imbé, a Prefeitura de Tramandaí, a Secretaria Estadual de Meio Ambiente e o Ministério Público devem:
o Revisar imediatamente projetos que ignoram o regime de cheias e o novo clima;
o Exigir transparência total dos estudos;
o Priorizar soluções baseadas na natureza, e não obras rápidas com alto impacto.
3. A população precisa ser ouvida, informada e respeitada.
Não se admite que decisões de grande impacto sejam tomadas sem participação social qualificada.
Conclusão: a era das cheias chegou — e exige responsabilidade
O Rio Grande do Sul vive o seu maior alerta ambiental da história.
A ciência global (IPCC) e a ciência local (IPH) estão alinhadas: eventos extremos serão mais frequentes, mais intensos e mais destrutivos.
Diante disso, Imbé, Tramandaí e o Litoral Norte não podem seguir repetindo erros estruturais em plena emergência climática.
Obras mal planejadas, feitas às pressas e sem estudos adequados colocam vidas em risco, agravando vulnerabilidades que o clima já está amplificando.
A proteção das famílias, das comunidades, das águas e dos ecossistemas deve ser prioridade absoluta — acima de pressões políticas, eleitorais ou econômicas.
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