TROCAR DE CANOS NÃO RESOLVE
SISTEMA DE MACRODRENAGEM DE IMBÉ
Inexistência de Planejamento, Erros Técnicos Reiterados e Nova Tentativa de Substituição Indevida da Canaleta da Av. Garibaldi
ATHOS STERN
Engenheiro, professor aposentado da Ufrgs
Consultor da Associação Comunitária de Imbé-Braço Morto
1. Pedido Formal de Informações Ignorado
A Associação Comunitária de Imbé – Braço Morto (ACIBM) protocolou, em 05/12/2023, junto à Prefeitura Municipal de Imbé, pedido formal de informações sobre a existência de projeto de macrodrenagem urbana, registrado sob o Processo nº 30633/23, dirigido ao Prefeito Luis Henrique Vedovato.
Até a presente data, não houve qualquer resposta oficial, o que indica, de forma inequívoca, a inexistência de estudos, projetos e planejamento técnico para o sistema de macrodrenagem do município.
2. O Que Caracteriza um Sistema de Macrodrenagem (e o que Imbé não possui)
Um sistema de macrodrenagem urbana exige, obrigatoriamente:
• levantamento topográfico e planialtimétrico;
• estudos hidrológicos, hidráulicos e geotécnicos;
• definição e integração das bacias de contribuição;
• projeto básico e projeto executivo;
• licenciamento ambiental compatível com a escala da obra;
• dimensionamento adequado das seções hidráulicas;
• definição clara do destino final das águas;
• plano permanente de operação e manutenção.
Nenhum desses elementos foi apresentado pela Prefeitura de Imbé, nem para as obras já executadas, nem para as novas intervenções anunciadas.
3. Falhas Estruturais Já Comprovadas nas Obras Executadas
As obras de drenagem realizadas nas avenidas São Miguel e Frederico Westphalen evidenciam:
• uso padronizado e injustificado de tubulações de 1,00 m de diâmetro para diferentes bacias hidrográficas;
• instalação das tubulações majoritariamente abaixo do lençol freático, em solo arenoso;
• funcionamento hidráulico semelhante a vasos comunicantes, com perda de declividade efetiva;
• assoreamento acelerado:
o cerca de 80% na Av. São Miguel, com apenas dois anos;
o cerca de 40% na Av. Frederico Westphalen já ao ser concluída;
• inexistência de método viável de desassoreamento;
• ausência total de plano de manutenção.
Esses elementos comprovam o fracasso técnico estrutural da solução baseada em tubulações enterradas.
4. A Canaleta da Av. Garibaldi: o Problema Não é o Conceito, é a Execução
A canaleta de drenagem existente na Av. Garibaldi, entre a Av. São Miguel e a Av. Beira-Mar, foi pessimamente executada pela própria Prefeitura, apresentando:
• inexistência de projeto;
• ausência de levantamento topográfico;
• dimensionamento mínimo e insuficiente;
• referência equivocada de nível, adotando a declividade da própria avenida, que conduz as águas para a Av. São Miguel, e não para o mar;
• seção hidráulica reduzida (aprox. 1,50 m de largura), incapaz de cumprir função relevante de macrodrenagem.
Essas falhas não invalidam a solução em canal aberto. Ao contrário: um canal corretamente projetado, nivelado e dimensionado teria elevado potencial de mitigação dos alagamentos da região.
Em áreas caracterizadas por solo arenoso saturado e lençol freático elevado, é reconhecido que, em tese, tubulações em PVC apresentam maior compatibilidade técnica quando instaladas abaixo do nível do lençol freático, em razão de sua estanqueidade, menor rugosidade hidráulica e juntas flexíveis.
Todavia, tal compatibilidade não produz qualquer efeito prático relevante quando a tubulação projetada ou executada a jusante — seja em PVC ou em concreto, com diâmetro nominal de 1,00 m — recebe águas provenientes de tubulação de concreto preexistente, de igual diâmetro, que se encontra com cerca de 80% de sua seção hidráulica assoreada, estando esta instalada majoritariamente (aproximadamente 80% de sua extensão) abaixo do nível do lençol freático.
Nessa condição, a conclusão técnica é objetiva e inequívoca: o estrangulamento hidráulico do sistema encontra-se estabelecido a montante, na tubulação já assoreada. A obstrução de cerca de 80% da seção útil reduz a capacidade hidráulica real para menos de 25–30% da capacidade originalmente projetada, comprometendo todo o sistema subsequente, independentemente do material adotado a jusante.
Assim, a simples substituição do material da tubulação posterior não corrige, não mitiga e não enfrenta a causa do problema, configurando intervenção paliativa e tecnicamente injustificável. O assoreamento observado não decorre de evento isolado, mas de erro conceitual reiterado, consistente na implantação de tubulações rígidas de concreto em solo arenoso, saturado e abaixo do lençol freático, condição que favorece infiltração permanente, piping e deposição contínua de sedimentos.
Mesmo a adoção de tubulação em PVC a jusante tende a herdar o passivo hidráulico e sedimentar da estrutura a montante, reproduzindo o assoreamento, a perda de eficiência, o aumento dos custos de manutenção e a redução da vida útil das obras públicas.
6. Nova Decisão da Prefeitura: Repetir o Erro em Escala Maior
Mesmo diante do fracasso das tubulações já implantadas, a Prefeitura de Imbé anuncia agora a substituição da canaleta da Av. Garibaldi por tubulação de PVC corrugado enterrada, novamente:
• sem apresentar qualquer estudo técnico;
• sem dimensionamento hidráulico;
• sem avaliação do assoreamento;
• sem análise do lençol freático;
• sem integração a um sistema de macrodrenagem inexistente.
Trata-se da repetição do mesmo erro, com agravamento das consequências.
7. Comparação Técnica das Seções Hidráulicas
• Substituir a canaleta existente (1,50 m) por tubulação de 1,00 m reduz a capacidade de vazão em cerca de 67%;
• Ampliar a canaleta para 4,50 m de largura aumentaria a capacidade de vazão em aproximadamente 3,8 vezes;
• Tubulações enterradas em solo arenoso e com lençol freático elevado tendem ao assoreamento rápido, como já comprovado.
Ou seja:
• trocar canaleta por tubo aumenta alagamentos;
• ampliar e corrigir a canaleta reduz alagamentos.
8. A Solução Técnica Correta Ignorada Há Décadas
Historicamente, as valas conduziam suas águas ao rio Tramandaí, que desaguava no mar. A solução lógica sempre foi:
• prolongar as valas existentes até o mar, aproveitando maior declividade;
• evitar conduzir águas por quase 2.500 m praticamente em nível até o rio.
Conduzir água “quase em nível” por longas distâncias é hidraulicamente irracional.
9. Conclusão Técnica
Os alagamentos em Imbé não são fenômenos naturais, mas consequência direta de decisões técnicas erradas, reiteradas ao longo do tempo.
Um canal aberto, corretamente projetado, ampliado e integrado, com destino direto ao mar, poderia representar um marco positivo na macrodrenagem do município.
O que se observa, no entanto, é a insistência em soluções fracassadas, que aprofundam o problema e desperdiçam recursos públicos.
Observação, pertinente e adequada, nota-se que em grande partes as obras, nas ruas e avenidas, são efetuadas em regime aleatório, sem planejamento. Ficando inacabadas. A pergunta deve ser feita ao secretário de obras municipais!!
ResponderExcluirComo o secretário acompanha as obras, onde publica os estudos?
A pergunta é absolutamente pertinente — e a resposta, infelizmente, é objetiva.
ExcluirO secretário municipal de Obras não apresentou, não publicou e não disponibilizou qualquer estudo técnico que fundamente as intervenções de drenagem executadas ou anunciadas no Município de Imbé. Não há registro público de:
estudos hidrológicos ou hidráulicos;
levantamentos topográficos ou planialtimétricos;
projetos básicos ou executivos;
integração das obras a um sistema de macrodrenagem;
licenciamento ambiental compatível com a escala das intervenções.
O próprio histórico administrativo confirma isso. Em 05/12/2023, a ACIBM protocolou pedido formal de informações diretamente ao Prefeito Municipal (Processo nº 30633/23), solicitando justamente a existência desses estudos e projetos. O pedido foi simplesmente ignorado, o que, no âmbito da administração pública, equivale a admitir sua inexistência.
Portanto, quando se pergunta “como o secretário acompanha as obras” e “onde publica os estudos”, a resposta técnica é clara: as obras não são acompanhadas com base em estudos, porque eles não existem. O acompanhamento ocorre de forma empírica, fragmentada e reativa, com decisões tomadas durante a execução, sem planejamento prévio, sem critérios hidráulicos e sem visão sistêmica.
Isso explica por que as obras:
são iniciadas sem projeto;
apresentam soluções padronizadas e inadequadas para bacias distintas;
entram rapidamente em colapso por assoreamento;
permanecem inacabadas ou exigem retrabalho em curto prazo.
Não se trata de falha pontual, mas de um modo de gestão, incompatível com qualquer política séria de macrodrenagem urbana. Em engenharia pública, obra sem estudo não é obra: é experimento — pago com dinheiro público e cobrado da população na forma de alagamentos recorrentes.
A responsabilidade técnica, administrativa e política por esse quadro é objetiva e não pode ser transferida ao acaso, ao clima ou à “natureza”.