AS LAGOAS DO LITORAL NORTE DO RS NÃO PODEM RECEBER OS EFLUENTES DAS ETEs


                                 Foto: Clovis Heberle

ATHOS STERN

Engenheiro, professor aposentado da Ufrgs

Consultor da Associação Comunitária de Imbé - Braço Morto



Premissa central (inegociável) para o sistema lagunar Tramandaí-Armazém:

👉 Não existe solução tecnicamente aceitável que envolva lançamento contínuo de efluentes — ainda que “tratados” — em sistema lagunar costeiro de baixa renovação hídrica.

Portanto, a solução correta não é um ajuste pontual, mas uma mudança de paradigma.


1. Princípio orientador da solução

A política de saneamento do Litoral Norte deve obedecer simultaneamente a quatro critérios técnicos:

1.     Isolamento do sistema lagunar de cargas crônicas de poluentes;

2.     Remoção avançada de nutrientes e contaminantes emergentes;

3.     Não transferência de risco para gerações futuras;

4.     Compatibilidade com a fragilidade ecológica da Zona Costeira.

Qualquer solução que falhe em qualquer um desses critérios é tecnicamente inadequada.


2. A SOLUÇÃO TECNICAMENTE INDICADA (modelo híbrido e escalonado)

EIXO 1 — PROIBIÇÃO DEFINITIVA DE LANÇAMENTO NO SISTEMA LAGUNAR

Medida estruturante:

  • Vedação total do lançamento de efluentes no Rio Tramandaí e no sistema Tramandaí–Armazém.

Fundamento técnico:

  • Baixa taxa de renovação hídrica;
  • Alta sensibilidade à eutrofização;
  • Acúmulo cumulativo de fósforo, nitrogênio, microcontaminantes e microplásticos;
  • Risco comprovado (caso Lagoa dos Barros).

Aqui não há margem técnica para negociação.


EIXO 2 — EMISSÁRIO SUBMARINO COMO DESTINO FINAL (fora da bacia)

Solução prioritária para grandes vazões urbanas (Capão da Canoa, Xangri-Lá, Atlântida):

✔ Emissário submarino oceânico
✔ Lançamento em ambiente de alta energia, dispersão e renovação
✔ Fora da bacia hidrográfica do Tramandaí

Por que é tecnicamente superior?

  • O oceano apresenta ordens de magnitude superiores de diluição;
  • Evita impactos cumulativos crônicos;
  • É solução amplamente adotada internacionalmente em áreas costeiras sensíveis;
  • Menor risco ambiental global do que sistemas lagunares fechados.

Condição obrigatória:
O emissário não substitui o tratamento — ele complementa um tratamento avançado.


EIXO 3 — TRATAMENTO TERCIÁRIO + QUATERNÁRIO OBRIGATÓRIO

Antes de qualquer destinação final, as ETEs devem operar com padrão avançado, incluindo:

3.1 Remoção avançada de nutrientes

  • Remoção biológica e/ou química de fósforo total (<0,05 mg/L);
  • Remoção de nitrogênio total (<5 mg/L);
  • Controle de cargas sazonais (verão).

3.2 Remoção de contaminantes emergentes

Tecnologias combinadas, como:

  • Carvão ativado;
  • Ozonização;
  • Membranas (MBR/UF);

• Membranas (MBR / UF)

MBR (Membrane Bioreactor) e UF (Ultrafiltração) são tecnologias de tratamento avançado de esgotos que utilizam membranas físicas de alta precisão para separar contaminantes da água tratada.

Como funcionam
A água passa por membranas com poros microscópicos (muito menores que bactérias), que retêm sólidos em suspensão, bactérias, vírus, protozoários, microplásticos e parte dos contaminantes orgânicos, permitindo a passagem apenas da água e de substâncias dissolvidas de muito pequeno tamanho.

Principais vantagens técnicas

  • Produzem efluente de alta qualidade, superior ao tratamento convencional;
  • Reduzem drasticamente patógenos e material particulado;
  • Funcionam como barreira física, independente de variações operacionais;
  • Permitem reuso seguro da água tratada;
  • Diminuem riscos sanitários e ambientais em corpos hídricos sensíveis.

Limitações (importantes)

  • Não removem totalmente nutrientes dissolvidos (nitrogênio e fósforo), exigindo etapas complementares;
  • Não eliminam sozinhas todos os fármacos e hormônios, devendo ser combinadas com ozonização, carvão ativado ou processos oxidativos avançados;
  • Maior custo de implantação e operação, compatível com áreas ambientalmente sensíveis.

Por que são indicadas no Litoral Norte
Em sistemas frágeis como o Tramandaí–Armazém, MBR/UF são essenciais para:
✔ reduzir carga microbiológica,
✔ conter microplásticos e sólidos finos,
✔ elevar o padrão do tratamento,
mas não substituem a necessidade de remover nutrientes nem justificam lançamento em lagoas costeiras.

Síntese técnica:
Membranas MBR/UF elevam significativamente a qualidade do efluente, mas não tornam ambientalmente seguro o lançamento contínuo em sistema lagunar costeiro, devendo ser usadas apenas como parte de um tratamento avançado e associado a alternativas de destinação mais seguras.

  • Processos oxidativos avançados.

“95% de eficiência” deixa de ser argumento.
O critério passa a ser o que permanece no efluente, não o que foi removido.


EIXO 4 — REUSO DE EFLUENTES TRATADOS (redução de volume)

Uso estratégico e progressivo:

  • Irrigação paisagística urbana;
  • Lavagem de vias;
  • Uso industrial;
  • Recarga controlada de aquíferos (onde tecnicamente viável).

Cada metro cúbico reutilizado:

  • Reduz pressão sobre corpos hídricos;
  • Diminui volume destinado ao emissário;
  • Reduz custo ambiental sistêmico.

EIXO 5 — WETLANDS CONSTRUÍDOS COMO BARREIRA FINAL (não como solução isolada)

Uso complementar, jamais como substituto:

✔ Polimento final do efluente
✔ Atenuação de nutrientes residuais
✔ Redução de patógenos
✔ Zona tampão ecológica

Importante:
Wetlands não são solução para grandes vazões urbanas sozinhos, mas são excelentes como barreira de segurança ambiental.

O que são Wetlands (áreas úmidas)

Wetlands são áreas alagadas naturais ou construídas que utilizam processos naturais da água, do solo, das plantas e dos microrganismos para filtrar, depurar e melhorar a qualidade da água.

Na prática, funcionam como um “filtro vivo”.


Wetlands construídos (uso no saneamento)

No saneamento, os wetlands construídos são sistemas planejados que imitam banhados e brejos naturais, por onde a água residual passa lentamente antes de seguir para seu destino final.

Como funcionam

  • A água escoa de forma lenta por um leito com solo, areia ou brita;
  • Plantas aquáticas (macrófitas) e microrganismos:
    • absorvem nutrientes (fósforo e nitrogênio),
    • reduzem matéria orgânica,
    • retêm sólidos,
    • diminuem patógenos.

O que eles removem bem

✔ Parte do fósforo e do nitrogênio
✔ Matéria orgânica residual
✔ Sólidos finos
✔ Bactérias e vírus (parcialmente)


Comentários

  1. Perfeito. Emissário submarino para alto mar após a implantação de tratamentos adicionais! É isso que temos que cobrar, afinal a corsan foi privatizada porque diziam que o estado não investiria o necessário e a iniciativa privada sim.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. RESPOSTA: Se a CORSAN foi privatizada sob o argumento de que haveria investimento e tecnologia, então é isso que deve ser cobrado: tratamento avançado obrigatório + emissário submarino fora da bacia lagunar.
      Mas com um ponto essencial:
      👉 Emissário não substitui tratamento de alto padrão.
      Ele é apenas o destino final adequado após remoção rigorosa de nutrientes, patógenos e contaminantes emergentes.
      O que não é aceitável é manter o lançamento contínuo no sistema lagunar Tramandaí–Armazém, que é de baixa renovação hídrica e extremamente sensível.
      Em resumo:
      Privatizou para investir? Então que invista na solução ambientalmente correta — não na mais barata.

      Excluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

PORTO EM ARROIO DO SAL

CARTA AOS PREFEITOS DO LITORAL NORTE DO RS

O LAGO DOS JACARÉS